Seja bem-vindo
Brasília,30/09/2026

  • A +
  • A -
Publicidade

Setor de beleza enfrenta desafio de preparar profissionais para atender clientes neurodivergentes

Formação prática, leitura de sinais de desconforto e adaptação de procedimentos ganham importância em um mercado que busca ampliar a inclusão

O Mundo Hoje
Setor de beleza enfrenta desafio de preparar profissionais para atender clientes neurodivergentes Reprodução

Uma barbearia pode ter equipamentos modernos, profissionais tecnicamente habilidosos e uma ampla oferta de serviços. Ainda assim, pode não estar preparada para receber parte de seus clientes. Quando diferentes formas de comunicação e processamento sensorial entram em cena, o desafio deixa de estar apenas no domínio da ferramenta e passa também pela formação de quem conduz o serviço.

Os dados mais recentes do IBGE dão dimensão a essa demanda. O Censo 2022, primeiro levantamento demográfico brasileiro a investigar o autismo, identificou 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com transtorno do espectro autista, o equivalente a 1,2% da população. Entre crianças de 5 a 9 anos, a proporção chegou a 2,6%.

Os números mostram que esse público não pode ser tratado como uma exceção eventual na rotina de salões e barbearias. A questão passa a ser como incluir esse conhecimento na qualificação profissional sem descaracterizar a atividade principal do setor.

Micael Luja Severo Vargas reúne duas perspectivas sobre esse desafio. A primeira vem da execução técnica como barbeiro. A segunda foi construída na posição de proprietário e formador, responsável por desenvolver profissionais e organizar o trabalho de uma equipe.

Sua preparação inicial para a profissão incluiu o curso Barbeiro Academy Hair, com 72 horas, concluído em 2015. Em 2017, buscou aperfeiçoamento em corte, fade, correção capilar, finalização e gestão de barbearia. Já o conhecimento voltado ao público autista foi desenvolvido no ambiente real de serviço, a partir da aplicação continuada de uma metodologia própria. Sua autoridade nessa área é de campo, não acadêmica ou clínica.

A capacidade de ensinar tornou-se parte importante desse percurso. Criada por Micael em 2016, a Barbearia do Gaúcho cresceu de uma operação individual para um estabelecimento com até seis barbeiros. Durante os anos de funcionamento, ele estima ter formado do zero ao menos dez profissionais.

O avanço mais relevante, porém, ocorreu quando a abordagem utilizada com pessoas autistas deixou de depender exclusivamente de sua atuação. Micael transmitiu os critérios do método aos integrantes da equipe, e barbeiros sem formação anterior em autismo passaram a realizar esses serviços de forma autônoma.

Esse resultado desloca o debate da habilidade individual para a capacidade de formação. Em vez de depender da presença de uma pessoa considerada naturalmente mais paciente, o estabelecimento pode organizar conhecimentos que orientem a conduta dos diferentes integrantes do quadro profissional.

Um dos problemas identificados por Micael ao longo dos anos foi a interpretação equivocada de determinadas reações. Sinais de desconforto podiam ser vistos como indisciplina ou falta de educação, quando estavam relacionados à forma como a pessoa respondia ao ambiente e ao próprio serviço. Para ele, corrigir essa leitura é parte essencial da preparação de um barbeiro.

A técnica continua indispensável, mas passa a ser acompanhada de capacidade de decisão. Quem trabalha diante da cadeira precisa compreender que a qualidade não depende somente da execução manual. Também envolve reconhecer as condições apresentadas pelo cliente e conduzir o trabalho de maneira coerente com elas.

“Na Barbearia do Gaúcho, ensinei aos barbeiros da equipe os critérios que eu utilizava nesses atendimentos. Eles também passaram a aplicar a abordagem, e isso mostrou que esse conhecimento podia ser transmitido, sem ficar restrito à minha atuação”, afirma Micael.

Ao compartilhar sua metodologia, Micael transformou conhecimento acumulado em parâmetros que podiam ser compreendidos e repetidos por outros barbeiros. A experiência da equipe demonstrou que esse preparo não precisa permanecer como uma característica pessoal do proprietário nem como um recurso restrito a um único profissional.

Para o setor de beleza, esse é um ponto decisivo. Uma prática inclusiva ganha alcance quando pode ser ensinada, incorporada à rotina e mantida mesmo com a mudança de quem executa o serviço. A qualificação deixa, então, de se limitar ao aprendizado de novas tendências de corte e passa a incluir a capacidade de atender uma clientela mais diversa.

Em um país com 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com autismo, preparar equipes para diferentes necessidades não representa apenas um diferencial comercial. É uma etapa necessária para que serviços comuns de cuidado pessoal estejam, de fato, disponíveis a um número maior de pessoas.

A trajetória de Micael mostra que essa competência pode ser desenvolvida e transmitida. Para salões e barbearias, a mudança começa quando a inclusão deixa de depender exclusivamente da disposição individual de um profissional e passa a integrar aquilo que a equipe aprende a fazer.





COMENTÁRIOS

Buscar

Alterar Local

Anuncie Aqui

Escolha abaixo onde deseja anunciar.

Efetue o Login

Recuperar Senha

Baixe o Nosso Aplicativo!

Tenha todas as novidades na palma da sua mão.