Por que qualidade e segurança se tornaram prioridades absolutas na indústria automotiva?
Especialistas alertam que falhas operacionais colocam em risco não apenas negócios, mas vidas humanas
Reprodução Qualidade e segurança deixaram de ser diferenciais e passaram a ocupar o centro da competitividade do setor. O debate ganhou ainda mais peso depois de um ano em que produção, vendas e pressão por desempenho seguiram elevadas no Brasil. Segundo a Anfavea, o país encerrou 2025 com 2,644 milhões de autoveículos produzidos, alta de 3,5% sobre 2024, enquanto as exportações cresceram 32,1% no período. Em um mercado desse porte, qualquer falha de processo deixa de ser pontual e passa a ter efeito ampliado sobre reputação, custo, confiança e segurança do usuário.
A preocupação não é abstrata. Em outubro de 2024, a Senatran informou que havia cerca de 3,4 milhões de recalls não atendidos no país, um volume que ajuda a dimensionar quantos veículos continuam circulando com correções pendentes relacionadas a segurança. O dado segue relevante ao entrar em 2026 porque mostra que o desafio não está apenas em desenvolver produtos e processos mais robustos, mas também em garantir padrão, rastreabilidade e cultura de prevenção ao longo de toda a cadeia automotiva.
Os organismos independentes de avaliação reforçam a mesma mensagem. O Latin NCAP seguiu divulgando resultados e atualizações no fim de 2025, inclusive anunciando um protocolo mais rigoroso para 2026, com exigências mais altas para classificação por estrelas e maior penalização à ausência de itens básicos de segurança. A entidade também publicou em dezembro de 2025 resultados que evidenciam diferenças concretas entre modelos vendidos na região, como o desempenho máximo do Volkswagen Novo Tiguan e do Kia EV4, enquanto versões do Toyota Yaris Cross e do Yaris Sedan/Hatchback receberam apenas duas estrelas. O recado é direto: segurança não pode mais ser tratada como aspecto secundário ou como atributo de marketing.
Para o engenheiro de produção e empresário Eduardo Mendonça, esse cenário confirma algo que operações técnicas sérias já deveriam tratar como princípio básico. “Quando qualidade e segurança não estão no centro da operação, o risco deixa de ser apenas empresarial. Dependendo da falha, ele alcança diretamente a vida das pessoas”, afirma. Na avaliação dele, o setor está sendo pressionado a amadurecer porque o mercado já não tolera improviso onde deveria existir padrão.
A posição de Eduardo se apoia em uma trajetória construída justamente dentro de operações automotivas de alta complexidade. Formado em Engenharia de Produção pela Universidade de Fortaleza, ele iniciou sua experiência profissional em processos e operações em 2005, atuou na Habitat Automação e, a partir de 2006, entrou no setor de blindagem automotiva, onde avançou até a gerência de produção antes de fundar a Duo Blindagens em 2009. À frente da empresa, assumiu liderança sobre processos produtivos, equipe executiva, alinhamento entre áreas e gerenciamento comercial.
Segundo Eduardo, um dos maiores erros das empresas é imaginar que qualidade possa ser verificada apenas na etapa final. “Se o controle só aparece no fim, o problema já percorreu o processo inteiro. Segurança de verdade começa na forma como a operação é estruturada, acompanhada e executada”, diz. Em sua visão, a cultura operacional precisa ser montada de modo que cada fase do trabalho seja conduzida com critério, responsabilidade e previsibilidade.
Esse ponto se torna ainda mais importante em um ambiente no qual os parâmetros externos estão ficando mais rígidos. A atualização do protocolo do Latin NCAP para 2026 é um sinal claro de que o padrão mínimo aceitável está subindo. Quando os critérios de avaliação aumentam, cresce também a necessidade de processos internos mais maduros, lideranças mais técnicas e rotinas menos tolerantes a variações.
Para Eduardo, velocidade sem rigor é uma armadilha. “Ganhar prazo ou escala à custa de perda de padrão é um falso avanço. Mais cedo ou mais tarde, isso volta em forma de retrabalho, desgaste com o cliente, prejuízo financeiro e exposição ao risco”, afirma. Na prática, ele defende que empresas automotivas sustentáveis são aquelas capazes de unir produtividade com disciplina operacional, e não aquelas que tratam esses objetivos como opostos.
A narrativa reforça esse posicionamento ao defini-lo como referência no desenvolvimento e liderança de operações automotivas de alta complexidade, com ênfase em excelência operacional, padronização de processos industriais, qualidade e segurança veicular, treinamento técnico e gerencial e pós-venda especializado. O mesmo material destaca sua criação de metodologias próprias de gestão, qualidade e treinamento técnico, voltadas à estruturação de modelos replicáveis de operação.
Portanto, a discussão sobre segurança automotiva já não se limita a normas ou conformidade documental. Ela está ligada à própria viabilidade de empresas que operam em segmentos de alta exigência técnica. Em um mercado maior, mais exposto e mais cobrado, qualidade e segurança se tornaram prioridades absolutas porque protegem não só o negócio, mas a integridade humana. E é justamente nesse ponto que especialistas com experiência real de operação, como Eduardo Mendonça, passam a ocupar espaço central no debate sobre o futuro do setor.




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