Debate sobre uso progressivo da força impulsiona mudanças em treinamentos de segurança pública
Instrutor da Polícia Militar de Pernambuco desenvolve metodologia de Controle Tático Progressivo que prioriza controle e redução da letalidade em abordagens policiais.
Reprodução O tema do uso progressivo da força consolidou-se como uma das principais pautas da segurança pública brasileira em 2022, impulsionado por dados recentes e pela crescente pressão por práticas mais eficientes e menos letais. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2022 apontou que o país registrou 6.145 mortes decorrentes de intervenções policiais em 2021, mantendo o Brasil entre os países com maiores índices desse tipo de ocorrência. Ao mesmo tempo, o estudo destacou que o treinamento e a padronização de protocolos continuam sendo fatores determinantes para a redução desses números.
No cenário internacional, relatórios de organizações como a Anistia Internacional e o próprio Conselho de Direitos Humanos da ONU reforçaram a necessidade de adoção de práticas baseadas em proporcionalidade, de-escalation e controle técnico. A discussão deixou de ser apenas institucional e passou a impactar diretamente a forma como policiais são treinados para atuar em situações de risco.
Dentro desse contexto, Pernambuco acompanha o movimento de modernização das práticas operacionais, com foco na qualificação técnica dos agentes. Um dos profissionais inseridos nesse processo é João Ricardo de Castro Melo dos Santos, policial militar desde 2010, com formação técnica em defesa pessoal policial, patrulhamento tático, policiamento de choque e controle de ocorrências e especialista em controle físico aplicado à atividade operacional.
A abordagem defendida por João, denominada Controle Tático Progressivo, parte de um princípio central: a resposta do policial deve acompanhar o nível de ameaça de forma proporcional e escalonada. Em vez de uma reação imediata baseada em força máxima, o modelo propõe níveis de intervenção que vão desde a presença e verbalização até técnicas de imobilização e contenção física.
Segundo ele, o maior problema enfrentado historicamente não está apenas na falta de preparo, mas na ausência de integração entre técnica e decisão. “O policial sempre teve ferramentas, mas muitas vezes faltava um sistema que organizasse essas respostas dentro de uma lógica progressiva. Quando isso é estruturado, a atuação se torna mais segura e eficiente”, explica.
A proposta se diferencia por incorporar elementos do jiu-jitsu adaptados à realidade policial, priorizando controle de articulações, domínio posicional e neutralização sem necessidade de impacto. Ao mesmo tempo, mantém alinhamento com diretrizes legais e operacionais já existentes, o que facilita sua aplicação em ambientes institucionais.
“Não basta conhecer a técnica. É preciso treinar a escolha da técnica no momento certo. Isso só acontece quando o policial é exposto a situações realistas durante o treinamento”, afirma.
A experiência prática também reforça a percepção de que abordagens baseadas em controle técnico tendem a reduzir riscos para todas as partes envolvidas. Embora não existam ainda dados oficiais consolidados sobre a aplicação ampla desse tipo de metodologia em Pernambuco, estudos nacionais e internacionais já indicam que programas de treinamento focados em de-escalation e controle físico reduzem lesões em policiais e civis.
Além da atuação operacional, João Ricardo também foi reconhecido institucionalmente ao longo de sua carreira, incluindo condecoração com a Medalha do Serviço Policial Militar em 2021 e reconhecimento pela Assembleia Legislativa de Pernambuco em 2022, fatores que reforçam sua credibilidade no campo da segurança pública.
Para ele, o avanço do debate representa uma oportunidade de evolução real das forças de segurança. “A sociedade exige resultados, mas também exige responsabilidade. O caminho está em preparar melhor o policial, dar mais recursos técnicos e estruturar o treinamento de forma inteligente”, conclui.
A tendência é que o uso progressivo da força deixe de ser apenas um conceito normativo e passe a ser, cada vez mais, um modelo prático de atuação. Nesse processo, iniciativas que conectam técnica, treinamento e tomada de decisão tendem a ocupar papel central na construção de uma segurança pública mais eficiente e equilibrada.




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