Gestão de Risco se Torna Estratégia Central em Cadeias Agroindustriais
Volatilidade cambial, clima e cenário regulatório exigem modelos mais sofisticados de decisão
Reprodução Esse ano começou com uma mensagem clara para o agronegócio brasileiro: crescer já não basta, é preciso proteger a operação contra variáveis que mudam rápido demais. Depois de um ano em que o setor fechou exportações recordes de US$ 169,2 bilhões, equivalentes a 48,5% de tudo o que o Brasil vendeu ao exterior, a pressão passou a recair sobre a qualidade das decisões em ambientes de maior incerteza.
Os números ajudam a explicar por que a gestão de risco subiu de patamar. No 4º levantamento da safra 2025/26, divulgado em 15 de janeiro, a Conab estimou a produção brasileira de grãos em 322,25 milhões de toneladas, 8,2% acima da safra anterior. Ao mesmo tempo, o monitoramento oficial mostrou que parte importante do calendário agrícola seguia sob influência de irregularidade de chuvas em áreas produtoras, fator que afeta produtividade, janela de plantio e previsibilidade operacional.
O risco climático não aparecia sozinho. No fim de janeiro, o Banco Central manteve a Selic em 15% ao ano, o maior nível desde 2006, sinalizando cautela diante da inflação e da incerteza macroeconômica. Para cadeias agroindustriais, juros elevados impactam custo de capital, financiamento de estoques, investimento em expansão e estruturação de hedge.
Havia ainda a frente regulatória. Em dezembro de 2025, a União Europeia aprovou o adiamento de um ano da lei antidesmatamento, empurrando a aplicação para 30 de dezembro de 2026 no caso das grandes empresas e 30 de junho de 2027 para as menores. O adiamento reduziu pressão imediata, mas não eliminou a exigência de rastreabilidade e comprovação de origem para cadeias como a da soja, mantendo o tema no radar de exportadores brasileiros.
Anderson Pelissari de Souza aparece como uma voz especialmente alinhada ao debate. Sua trajetória combina atuação em governança corporativa, cadeia de suprimentos e gestão de risco, primeiro como consultor em supply chain na Arthur Andersen e em enterprise risk services na Deloitte, depois como sócio-diretor administrativo do Grupo JBPS e como acionista e integrante do Comitê de Negócio vinculado ao Conselho de Administração da Caramuru Alimentos.
O setor entrou em uma fase em que risco deixou de ser assunto periférico e passou a organizar a própria lógica da estratégia. “Durante muito tempo, havia empresas que tratavam risco como um bloco separado da operação. Hoje isso não funciona mais. Câmbio, clima, financiamento, logística e exigência regulatória estão interligados. Quem não enxerga essa conexão tende a reagir tarde.”
Na avaliação dele, o recorde de exportações de 2025 trouxe força ao setor, mas também aumentou sua exposição. “Quanto mais internacionalizada é a cadeia, maior a necessidade de disciplina decisória. O mercado externo amplia oportunidades, mas também amplia sensibilidade a variações de preço, frete, taxa de juros, compliance e origem do produto. Isso exige método.”
“Gestão de risco madura não é fazer relatório depois do problema. É estruturar antecipação. É criar governança, estabelecer critérios, mapear exposição e decidir antes que a pressão vire perda”, afirma. “Em agroindústria, isso vale para compra, venda, armazenagem, transporte, crédito, investimento e relacionamento com mercados internacionais.”
A própria configuração do setor reforça essa tese. O Brasil entrou em 2026 com safra projetada em alta, com exportações em nível recorde e com corredores logísticos cada vez mais relevantes para a competitividade. Quanto maior a escala, maior o impacto de uma decisão mal calibrada. Por isso, Anderson sustenta que o diferencial não está apenas em produzir mais, mas em operar com mais inteligência institucional.
Ele também chama atenção para a mudança de perfil dos conselhos e comitês estratégicos dentro do agro. “Hoje não basta olhar resultado passado. Os fóruns de decisão precisam discutir exposição futura. Risco passou a ser tema de posicionamento competitivo, não só de proteção. Ele influencia expansão, capacidade de investimento e permanência em mercados exigentes.”
Esse raciocínio ganha força num momento em que o debate global sobre rastreabilidade, sustentabilidade e origem das commodities deixa de ser tendência e passa a influenciar contratos, auditorias e acesso a mercados. Mesmo com o adiamento europeu, o sinal regulatório já foi dado, e a adaptação tende a favorecer companhias com mais governança, melhor documentação e maior capacidade de coordenação interna.
A leitura de Anderson, portanto, não é defensiva. Para ele, risco bem tratado também cria vantagem. “Quem desenvolve capacidade de antecipar cenário, responder com rapidez e sustentar confiabilidade ganha competitividade. Em cadeias agroindustriais, isso vale tanto quanto escala e eficiência.”
O agronegócio brasileiro continuava forte, exportador e relevante para a economia do país. Mas o novo ciclo já mostrava outro critério de liderança: não apenas crescer, e sim crescer com controle, previsibilidade e capacidade de decisão em ambientes voláteis. É justamente nesse ponto que a gestão de risco se consolida como estratégia central.




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