Projetos paisagísticos passam a influenciar bem-estar e permanência em ambientes residenciais, corporativos e de saúde
Arquitetura integrada ao verde fortalece sensação de acolhimento, reduz rigidez visual e transforma a relação das pessoas com os espaços
Reprodução O avanço das discussões sobre bem-estar, saúde mental e qualidade dos ambientes construídos tem levado o paisagismo a ocupar uma posição cada vez mais estratégica em projetos residenciais, corporativos e de saúde. O que antes era visto como complemento visual passou a ser considerado parte da experiência de uso, influenciando conforto, permanência, percepção de acolhimento e relação emocional das pessoas com os espaços.
A mudança acompanha um cenário em que o setor da construção segue ativo e mais competitivo. Dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção apontam que a construção cresceu 2,9% no primeiro trimestre de 2026 em relação aos três últimos meses de 2025. O mesmo levantamento informa que, em 2025, os lançamentos imobiliários cresceram 13,88%, totalizando 471.769 unidades, enquanto as vendas avançaram 7,18%, alcançando 433.681 unidades comercializadas.
Com mais empreendimentos chegando ao mercado, diferenciais ligados à experiência do usuário ganham peso. Fachadas verdes, jardins internos, áreas de permanência, acessos arborizados, varandas ajardinadas e espaços de convivência deixaram de ser decisões meramente estéticas. Em muitos projetos, esses elementos passaram a atuar como recursos de qualificação ambiental, identidade arquitetônica e humanização.
A Organização Mundial da Saúde já reconhece que áreas verdes urbanas podem contribuir para a saúde física e mental, favorecendo relaxamento psicológico, redução do estresse, estímulo à convivência social, incentivo à atividade física e menor exposição a ruído, calor excessivo e poluição. No campo científico, um estudo publicado na revista Scientific Reports, com 19.806 participantes, associou ao menos 120 minutos semanais de contato com a natureza a maior probabilidade de relato de boa saúde e alto bem-estar.
Outra pesquisa, publicada na Frontiers in Psychology, avaliou moradores urbanos durante oito semanas e observou que experiências em contato com a natureza produziram queda adicional de 21,3% por hora nos níveis de cortisol salivar, hormônio relacionado ao estresse, além do declínio natural esperado ao longo do dia. O estudo também indicou que experiências entre 20 e 30 minutos apresentaram maior eficiência na redução desse marcador fisiológico.
Quanto a arquiteta paisagista Bruna Rafaela Nina Silva, os números reforçam algo que a prática profissional já demonstra em diferentes contextos: ambientes verdes bem planejados modificam a forma como as pessoas se comportam, permanecem e se sentem dentro de um espaço.
“Quando o paisagismo é pensado desde o conceito do projeto, ele deixa de ser apenas um acabamento. Ele passa a organizar sensações, conduzir fluxos, criar pontos de pausa e suavizar a rigidez da arquitetura. Isso muda a experiência de quem mora, trabalha, consome ou recebe atendimento naquele ambiente”, afirma Bruna.
“A residência deixou de ser apenas um lugar de abrigo. Depois das mudanças de comportamento dos últimos anos, as pessoas passaram a valorizar mais os espaços de permanência, a ventilação, a luz natural e a presença de elementos vivos. Um jardim bem desenhado pode transformar a rotina de uma família”, analisa.
No universo corporativo, a lógica é diferente, mas igualmente relevante. Empresas têm buscado ambientes capazes de transmitir identidade, acolher visitantes e oferecer mais conforto visual a equipes e clientes. Jardins internos, vasos de grande porte, fachadas com vegetação e áreas externas qualificadas ajudam a reduzir a sensação de frieza comum em espaços excessivamente técnicos ou padronizados.
Bruna observa que, nesses casos, o paisagismo precisa dialogar com marca, circulação e manutenção.
“Em um projeto corporativo ou comercial, o verde também fala. Ele pode transmitir sofisticação, acolhimento, leveza, imponência ou proximidade. A diferença está na curadoria das espécies, no desenho dos volumes, no equilíbrio entre cheios e vazios e na forma como tudo se integra à arquitetura”, explica.
“Em clínicas e espaços de saúde, o paisagismo precisa acolher sem exagerar. A escolha das espécies, a organização visual e a sensação de frescor ajudam a tornar o ambiente menos impessoal. O objetivo é criar uma atmosfera mais tranquila, sem perder funcionalidade e segurança”, pontua.
Segundo Bruna, o avanço do paisagismo como ferramenta de bem-estar depende de uma mudança de mentalidade. O projeto precisa ser concebido com responsabilidade técnica, e não apenas como resposta estética de última etapa. Isso envolve estudo de insolação, ventilação, manutenção, comportamento das espécies, proporção dos volumes vegetais e relação com os materiais da arquitetura.
Para Bruna Rafaela, o futuro dos espaços construídos passa justamente por essa integração.
“As pessoas não querem apenas circular por lugares bonitos. Elas querem se sentir bem neles. O verde tem essa capacidade de aproximar, acalmar e tornar o ambiente mais humano. Quando arquitetura e paisagismo trabalham juntos, o espaço deixa de ser apenas construído e passa a ser vivido”, conclui.




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