Internacionalização exige mais que capital: estratégia e adaptação regulatória definem sucesso
Expansões empresariais fracassam quando ignoram arquitetura societária, planejamento operacional e integração tecnológica
Reprodução Começou com um contraste revelador no ambiente internacional. De um lado, o capital global voltou a circular com mais força: a UNCTAD informou em 20 de janeiro que o investimento estrangeiro direto subiu 14% em 2025, alcançando US$ 1,6 trilhão. De outro, os indicadores que costumam mostrar a solidez dessa expansão continuaram frágeis: fusões e aquisições internacionais caíram 10%, o project finance internacional recuou 16% em valor e os anúncios de projetos greenfield diminuíram 16% em número. Para o mercado, o recado foi claro: há dinheiro, mas isso não significa que internacionalizar ficou simples.
Esse descompasso ajuda a explicar por que tantas operações falham quando atravessam fronteiras. Não basta ter caixa para entrar em outro país. É preciso compreender legislação local, ritmo de licenciamento, desenho societário, logística, tributação, relação com autoridades, infraestrutura e, cada vez mais, integração tecnológica. Em 2025, a própria leitura executiva global caminhou nessa direção: CEOs ouvidos pelo The Conference Board colocaram a intensificação das guerras comerciais como principal risco geopolítico do ano, e 71% dos CEOs nos Estados Unidos disseram que pretendiam alterar suas cadeias de suprimento nos próximos três a cinco anos.
A pressão não vinha apenas das grandes corporações. Entre pequenas e médias empresas, a disposição para crescer fora do mercado doméstico seguiu alta, mas acompanhada por obstáculos concretos. Em relatório publicado pela FedEx em novembro de 2025, 85% das SMEs da Ásia-Pacífico afirmaram que planejavam entrar ou ampliar atuação na Europa nos 12 a 24 meses seguintes. Ao mesmo tempo, 86% disseram que mudanças regulatórias e volatilidade comercial já haviam atrapalhado sua capacidade de fazer negócios com o mercado europeu, enquanto 57% apontaram custos logísticos como principal barreira para exportar. A pesquisa ouviu 850 SMEs em 13 mercados da Ásia-Pacífico e mais de 1.200 SMEs em nove mercados europeus.
É nesse ponto que a trajetória de Dener Lameiras Vieira se torna especialmente relevante para o debate. Em vez de tratar internacionalização como simples abertura de operação em outro país, ele a enxerga como um exercício de arquitetura empresarial.
Na avaliação de Dener, o erro mais comum das empresas que tentam expandir para outro país é imaginar que capital resolve sozinho um problema que, na prática, é de desenho.
“Quando a empresa olha para internacionalização apenas como investimento financeiro, ela ignora o que realmente sustenta a operação. O sucesso depende da forma como o negócio se adapta ao ambiente regulatório, organiza sua estrutura societária, monta sua operação local e conecta tecnologia com execução. Sem isso, a expansão fica vulnerável desde o início.”
O valor dessa experiência está justamente no fato de ela tocar os pontos onde muitas internacionalizações travam. Não se tratou apenas de “levar a marca” para fora, mas de estruturar as condições que permitem a operação acontecer dentro de outra lógica jurídica, institucional e operacional. Em um cenário no qual a incerteza regulatória se intensificou, essa capacidade passou a ser ainda mais decisiva. Matéria da Risk Management Magazine publicada em agosto de 2025, com base no Global Business Complexity Index 2025 da TMF Group, destacou que apenas 9% das jurisdições esperam que a regulação futura se torne mais simples nos próximos anos. O texto também chama atenção para o peso de fatores localizados, como exigências documentais específicas, interação com diferentes autoridades e a velocidade com que novas regras vêm sendo introduzidas.
“Cada país tem sua própria combinação de regras, cultura operacional, tempo de resposta institucional e exigências tecnológicas. Se a empresa entra sem entender essa engrenagem, ela começa gastando energia para corrigir erro estrutural. A expansão deixa de ser crescimento e vira contenção de problema.” diz Dener.
Mesmo quando produto, preço e demanda parecem promissores, a operação pode ser comprometida pela fricção dos fluxos de pagamento. A Visa reportou que 63% das SMBs enxergavam a complexidade dos pagamentos transfronteiriços como um obstáculo ao crescimento, em 2025. O mesmo material indicou que 67% dos sellers de marketplaces com vendas domésticas e internacionais disseram que a espera por repasses afetava sua capacidade de fazer negócios.
Por isso, a discussão sobre expansão bem-sucedida não pode ser reduzida a mercado-alvo ou marketing local. Em 2026, internacionalizar passou a significar, ao mesmo tempo, saber montar a empresa, proteger sua operação, encaixar o produto no contexto regulatório e criar infraestrutura funcional para rodar com consistência. Quando esse conjunto falha, o capital investido não encontra base para se transformar em operação sustentável.
“Entrar em outro país não é apenas abrir CNPJ local, contratar serviço e começar a vender. É alinhar estrutura societária, operação, tecnologia, indicadores e governança ao novo ambiente. Quando esses elementos conversam entre si, a expansão ganha tração. Quando não conversam, o capital se dispersa.” afirma.
O investimento global voltou a crescer, mas a base qualitativa da expansão seguiu pressionada por incerteza, concentração setorial, queda em projetos greenfield e aumento da complexidade regulatória. Em outras palavras, a internacionalização continua viva, mas mais seletiva. Ela favorece menos quem simplesmente investe, e mais quem sabe estruturar.




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