Estradas vicinais entram no centro do debate sobre competitividade e logística
Especialistas apontam gargalos históricos e soluções técnicas para melhorar o escoamento da produção
Reprodução A discussão sobre competitividade logística no Brasil voltou a colocar as estradas vicinais no centro das prioridades. A razão é simples: boa parte do transporte interno depende de rodovias e, nas áreas rurais, a qualidade das vias define custo, prazo e previsibilidade do escoamento.
Dados do Plano Nacional de Logística (PNL 2025) mostram a dimensão dessa dependência: os deslocamentos de cargas no país somaram 2.386,7 bilhões de TKU, com o transporte rodoviário respondendo por 65% do total. Isso significa que qualquer fragilidade na malha viária, especialmente na “última milha” rural, vira gargalo direto para cadeias produtivas inteiras.
O tema ganhou ainda mais contorno prático após a divulgação de um estudo da CNA que traçou um retrato detalhado das vias rurais. O levantamento aponta que o Brasil possui cerca de 2,2 milhões de km de estradas vicinais, distribuídas em microrregiões por todo o território, com predominância de trechos não classificados e grande presença de vias sem padrão técnico adequado.
O impacto econômico desse cenário também foi quantificado. Segundo análise divulgada pela Universidade de São Paulo com base em estudos do setor, as condições precárias das estradas vicinais geram R$ 16,2 bilhões por ano em custos de transporte para o escoamento da produção agropecuária, e melhorias na malha poderiam reduzir perdas e ampliar eficiência em bilhões anuais.
Além do efeito no frete e na produtividade, o peso da logística aparece no macroindicador. Estudo do ILOS divulgado em 2025 indica que os custos logísticos chegaram a 15,5% do PIB no ano, reforçando como infraestrutura e eficiência operacional se conectam à competitividade do país.
Dentro desse debate, soluções técnicas para estradas não pavimentadas passaram a receber mais atenção, principalmente quando o objetivo é elevar trafegabilidade com execução rápida e racionalidade de custo. Um dos especialistas consultados pela reportagem foi Yan Chiozzo Pereira, fundador da TopSolo, com foco em infraestrutura sustentável e estabilização de solo.
Yan explica que o problema das vicinais raramente é “apenas estrada”. Para ele, quando a via rural falha, a consequência chega em camadas.
“Competitividade não é só exportar mais, é conseguir tirar a produção do campo com regularidade. Quando a estrada vira poeira, lama e manutenção infinita, o custo aparece no frete, no tempo, na perda de qualidade e na rotina das comunidades.”
Para Yan, o debate de competitividade precisa incluir um ponto que muitas vezes fica fora do radar: gestão e método de obra. “Não existe uma resposta única. O que existe é diagnóstico correto do solo, objetivo claro para aquela estrada e execução com padrão técnico. Quando isso acontece, o município ganha previsibilidade.”
O consenso técnico que cresce no setor é que o país não depende apenas de grandes obras, mas também de soluções aplicáveis na escala real do território, especialmente na malha rural. Para quem vive e produz fora dos eixos principais, estrada funcionando não é detalhe: é condição básica de acesso, produtividade e continuidade econômica.




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